Casos

Camponeses

Caso 1 – “Gringo” Raimundo Ferreira Lima

Gringo
Raimundo Ferreira Lima

Raimundo Ferreira Lima, mais conhecido como “Gringo” foi executado por pistoleiros em maio de 1980, quando somava apenas 43 anos, em São Geraldo do Araguaia, sudeste paraense. Além de sindicalista em Conceição do Araguaia, Lima era agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Gringo foi o primeiro dirigente sindical assassinado na região imortalizada como a mais violenta na luta pela terra no país. O principal suspeito pelo sequestro e execução do sindicalista, quando o mesmo retornava de evento em São Paulo, recai sobre o fazendeiro Neif Murad, relata uma das edições do boletim Grito da PA 150.

Naquela época, assim como hoje, o setor ruralista usa como tática a formação de consórcio com vistas a eliminar os seus adversários. O recurso da formação de consórcio dificulta na elucidação do caso, em efetivar o fio da meada, em elucidar a cadeia de sujeitos envolvida na empreita.

No caso de Gringo, além de Murad, havia suspeitas de envolvimento do então deputado estadual, o médico e pecuarista Giovanni Corrêa Queiroz, natural de Minas Gerais. O mineiro, desde sempre, integrou a “bancada do boi”. Ruralistas e políticos do campo conservador sempre fizeram par na disputa pela terra na região. O professor Alex Lima e família (filho de Gringo) assinam o registro sobre o caso.


Caso 2 – Canuto

João Canuto de Oliveira

Nascido no estado de Goiás, João Canuto de Oliveira veio ao mundo no dia 3 de janeiro de 1936 no distrito de Santa Maria, município de Trindade. Oliveira era filho do ex combatente da Coluna Prestes, José Raimundo de Oliveira e da parteira Jovelina Canuto de Oliveira. Aos 22 de idade fez par com a dona Geraldina Pereira (prima), com quem viveu por 27 anos, e teve seis filhos, sendo quatro homens e duas mulheres.

Tal Expedito Ribeiro, e tantos outros, migrou para o Pará na década de 1970. Em Rio Maria, trabalhou na Fazenda Três Irmãos de propriedade de Valdomiro Gonçalves de Paula, o Valtim.

João Canuto de Oliveira foi assassinado com 18 tiros desferidos à queima roupa, na tarde do dia 18 de dezembro de 1985, em frente ao cemitério da cidade. O crime sucedeu por encomenda dos fazendeiros Adilson Carvalho de Laranjeira (ex-prefeito de Rio Maria) e Vantuir Gonçalves, proprietário da fazenda Estrela do Pará. Dois pistoleiros não identificados realizaram a missão.

Como em outros casos, estima-se que pelo menos 20 pessoas empenharam recursos para viabilizar a execução do sindicalista, entre eles, fazendeiros, políticos e comerciantes.  Vivia-se sob a ameaça constante das ações da União Democrática Ruralista (UDR), entidade articulada pelo médico, fazendeiro e político Ronaldo Caiado. Tratava-se do braço armado dos fazendeiros, que irá consagrar os anos de 1980 como os mais sangrentos no sul e sudeste do Pará.  Luzia, filha de João,  professora, historiadora e militante do PC do B narra a saga da família.


Caso 3 – Expedito Ribeiro

Expedito Ribeiro

O poeta, sindicalista e militante do PC do B tombou no dia 02 de fevereiro de 1991, no município de Rio Maria, sul do Pará, quando presidia o Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município.  O pistoleiro Serafim de Sales (Barrerito) foi o encarregado da encomenda realizada pelo fazendeiro Jerônimo Alves de Amorim.

As execuções de outros dirigentes e ativistas precederam a morte de Ribeiro, a exemplo dos assassinatos de Gringo e membros da família Canuto, João (patriarca), José, Paulo e um atentado à bala de Orlando (filhos).

Desde os anos de 1980, período marcado pelo avanço da fronteira do capital, a região ficou conhecida mundialmente pela letalidade das disputas pela terra.  Nascido em Governador Valadares, em Minas Gerais, Ribeiro migrou para a região na década de 1970, quando da integração subordinada da região aos principais centros econômicos do país.

Em junho de 2000, quase uma década depois do crime, Jerônimo Alves era condenado a 19 anos e seis meses de prisão. Foi a primeira vez que um mandante de assassinato de dirigente rural sentou no banco dos réus. Atuou como assistente da acusação do caso Luiz Eduardo Greenhalgh, e como advogado de defesa dos fazendeiros Américo Leal, que se notabilizará como defensor de fazendeiros, pistoleiros e policiais envolvidos nesta modalidade de crime. José Ribeiro de Sousa, sobrinho, técnico em agropecuária, historiador, membro do Comitê Rio Maria, e militante do PC do B assina o registro.


Caso 4 – Arnaldo Delcídio Ferreira

Fonte: arquivo do Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (Cepasp).

Filho de Patos de Minas, Minas Gerais, Arnaldo Delcídio Ferreira nasceu em 28 de abril de 1937 em uma família de lavradores.  A lida com a terra aprendeu com os pais, que labutavam em latifúndios. 

Nas Gerais trabalhou na formação de pastagens. Em 1970 apeou com a família em Aragominas, na época terras do estado do Tocantins. Nos anos de 1980 migra para Eldorado do Carajás, no Pará, a contragosto da família. 

O estado de exceção ainda respirava. Grandes obras como a construção da hidroelétrica de Tucuruí, Ferrovia de Carajás, garimpo de Serra Pelada, e os resquícios da Guerrilha do Araguaia formavam a atmosfera da época. O sul e sudeste do estado eram áreas militarizadas, assim como toda a Amazônia.

Na comunidade de Pedra Furada, Arnaldo labutava em 10 alqueires de terra.  A ocupação do grilo Água Fria do latifundiário Domingos Rangel por trabalhadores rurais sem terra, após inúmeras idas e vindas, desembocou na execução de Arnaldo em maio de 1993.

O principal suspeito é o filho de Rangel, o senhor Marco Antonio.  Segundo relatos, a família grilava terras em todo o estado.  As pelejas do combatente Arnaldo são contadas pelo histórico militante e educador de Marabá, Raimundo Gomes da Cruz Neto (Raimundinho).


Caso 5 – Virgílio Sacramento

Virgílio Sacramento

O pai de 11 filhos, 44 anos, dirigente sindical da região de Moju, norte do estado do Pará foi assassinado no dia 05 de abril de 1987, quando morava na Vila do Sucuriju, na comunidade São Pedro. Sacramento foi atropelado por um caminhão quando dirigia uma pequena moto.  Sacramento presidiu o Sindicado dos Trabalhadores Rurais de Moju, integrou a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e foi agente da CPT.

Filho do Baixo Tocantins, da cidade e Limoeiro do Ajuru, Virgílio nasceu no dia no dia 02 de outubro de 1942, filho dos extrativistas e camponeses Virgílio Serrão e Ana Serrão Sacramento, pais de mais sete crianças. Nos anos 1950 por conta do ciclo da colheita da pimenta do reino, a família passa a trabalhar sazonalmente em Tome Açu.

Nos anos de 1970 moravam em Moju, que já registrava a presença de grandes corporações que exercitavam o monocultivo de dendê e coco, entra elas, a Reasa, Reflorestadora S.A da Amazônia, Agropalma e a Dempasa. Todas elas indutoras de situações de conflitos por terra.

Osvaldo Camargo, o motorista que dirigia o caminhão de placa PT-1189, da cidade de Paragominas foi preso no município de Tailândia. Levado para Belém para prestar depoimento, manteve-se em silencio.  Recebeu uma pena branda e nunca passou um dia na cadeia. O advogado João Batista, antes de ser assassinado a tiros foi alvo de um atentado semelhante. Elias Sacramento, historiador e professor da UFPA conta a história do pai. 


Caso 6 – Avelino Ribeiro da Silva

Fonte: Paulo Maldos, filme Nossa Força é a Nossa União, 1981.

Tal João Canuto, Avelino Ribeiro da Silva era filho das terras do estado do Goiás, nascido na cidade de Capanema, filho de família com profundos laços à terra, sendo o pai trabalhador de fazendas em várias partes do país. Antes de aportar em Santarém, no oeste do Pará, a família correu o trecho por São Paulo, Ceará e Minas Gerais, e pelejou em Marabá, no sudeste paraense.

Como trabalhador de fazenda, sempre nutriu o sonho em ter a própria terra. A encontrou na comunidade de Igarapé Preto, nos dias de hoje território de Rurópolis, onde seria assassinado em 24 de março de 1982.  

Nas terras sob a influência da BR 163, Silva cerrou fileiras junto ao movimento sindical a partir da influência das Comunidades de Eclesiais de Base (CEBs) e demais pastorais sociais, e ingressou na luta sindical como educador.  Dono de bom humor e cantador de modas sertanejas, o sindicalista animava o ambiente com a sua cantoria.  A morte do dirigente desagregou a família de forma profunda. Raimundo Monteiro, filha de lavradores, professora e ex reitora da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) é quem assina o relato sobre o Silva. 


Caso 7 – “Dezinho” José Dutra da Costa

Dezinho – José Dutra da Costa

No dia 21 de novembro o assassinato do dirigente José Dutra da Costa somou duas décadas.  O crime ocorreu quando o sindicalista estava na porta de sua casa, no município de Rondon do Pará, no sudeste do Pará.  A terra grilada da fazenda Tulipa Negra foi o estopim da execução. Ela havia sido ocupada por 150 famílias.

O título do documento de posse estava em nome do fazendeiro Kyume Mendes Lopes. O título da fazenda teria sido expedido pelo Governo do Estado em 1918. No entanto, nesta época o Estado do Pará não titulava terras. Atesta documentação organizada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), que realça que o título foi oficialmente declarado falso pelo Instituo de Terras do Pará (Iterpa) em 1978.

O pistoleiro Wellington Silva, “O Baiano”, foi o autor dos disparos. Ele havia chegado em Rondon há cinco dias a convite do seu tio, Gilson Silva, produtor de carvão e pequeno pecuarista. O intermediário na contratação do pistoleiro foi Ygoismar Mariano Silva, o “Ygor”, que recebeu 15 mil reais pela empreitada. A Wellington caberia a quantia de R$ 2 mil reais, recebidos somente depois da tarefa cumprida. O pistoleiro foi preso, mas não revelou os nomes dos mandantes.

O fazendeiro e madeireiro José Décio Barroso Nunes, o “Delsão”, Olávio Rochae Josélio Barros são considerados como mandantes do crime contra o dirigente sindical e migrante do Maranhão. Em 2014 Delsão foi a julgamento.  Maria Joel, a viúva, além das crianças herdou a bandeira de luta de Dezinho. A família de Dezinho e o advogado Marco Polo, da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos são os responsáveis pelo registro.


Caso 8 – José Cláudio e Maria do Espírito Santo

Maria do Espírito Santo e José Cláudio

O casal de extrativistas José Cláudio e Maria do Espírito Santo foi tocaiado no dia 24 de maio de 2011, quando se deslocavam de moto no interior do projeto de assentamento agroextrativista (PAE) Praia Alta Pinheira, no município de Nova Ipixuna, sudeste do Pará, nas imediações de Marabá.  

O PAE é único nesta categoria na região de maior concentração de assentamentos rurais do país, número estimado na casa dos 500. Quando instituído em 1997, o PAE continha 85% de cobertura vegetal. Nos dias atuais, por conta de madeireiras e guseiras, resta somente 20%.

O nome do casal, assim como tantos outros camponeses e dirigentes sindicais, constava em uma lista de marcados para morrer pelo latifúndio.  Meses antes da sua execução, em evento público – TED Amazônia – realizado em Manaus, no mês de novembro, o extrativista alertou sobre as ameaças que vinha sofrendo.

Maria e Zé Claudio foram brutalmente assassinados em uma emboscada cruel e covarde. Maria foi atingida com disparos de cartucheira que perfuraram o coração e os pulmões.  Foi a primeira a tombar sem vida atingida por balins (esferas de chumbo). Zé Claudio sofreu perfurações no coração e no pulmão. Zé Claudio ainda respirava, quando os pistoleiros saíram do mato.

O casal foi arrastado pelos braços. O capacete foi retirado e as orelhas cortadas. Como se fosse uma assinatura do pistoleiro. Um recado para os demais moradores do lugar. Um alerta. Claudelice, irmã de Zé Cláudio, e quem assumiu a bandeira do casal, é a responsável pelo registro.

Massacres

Caso 1 – Chacinas da década de 1980

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Fonte: Site Racismo Ambiental

A violência em paragens da Amazônia contra as populações locais – indígenas, quilombolas e campesinas – ligadas à terra, e as riquezas que dela derivam passa a ter um caráter sistemático a partir da década de 1960, especialmente durante a ditadura civil-militar (1964-1985), período marcado pela militarização da questão agrária. Momento da integração subordinada à economia mundializada, e ratificação da região à exportadora de matérias primas às economias centrais.  Nesta direção ratificou e aprofundou a condição colonial da mesma.

Nos anos de 1980, considerados os mais sangrentos, o país passava pela transição política. Ambicionava-se a efetivação do Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), quando setores mais conservadores da sociedade efetivam a União Democrática Ruralista (UDR), e no Congresso Nacional, forja o bloco de poder denominado de Centrão, que ainda hoje goza de hegemonia.

Em parauaras o ambiente fomentará inúmeras execuções de camponeses, dirigentes sindicais, seus apoiadores e chacinas.  A CPT indica em seus registros a existência  cerca de 40 chacinas na década de 1980, com o saldo de 212 mortes. Dos 40 casos, em apenas dois foram iniciados os processos de apuração: as chacinas do Castanhal Ubá e da Fazenda Princesa. Os professores Rogerio Almeida (UFOPA) e Airton Pereira (UEPA) refletem sobre os casos.


Caso 2 – Massacre de Eldorado dos Carajás

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Foto: Sebastião Salgado

No dia 17 de abril de 1996, sob a ordem do médico Almir Gabriel, então governador do estado do Pará pelo PSDB, e do secretário de segurança Paulo Sette Câmara, 155 PMs comandados pelo coronel Mário Colares Pantoja e o major José Maria Pereira de Oliveira executaram 19 trabalhadores rurais sem terra ligados ao MST, no lugar denominado de Curva do S, na PA 150 (hoje BR 155), no município de Eldorado do Carajás, sudeste do estado do Pará, Amazônia Oriental.

Lembremos, o crime aconteceu na presidência do professor Fernando Henrique Cardoso. No mesmo ano de outro crime, a privatização da Vale. Crimes precedidos pelo Massacre de Corumbiara, ocorrido também em terras amazônicas, desta feita em Rondônia, em agosto de 1995. Oficialmente, 16 foram os mortos.

No lugar mais violento na peleja pela terra do país, o sudeste e sul do Pará, sangue de camponesas/es e suas/eus apoiadoras/res encharca as terras, os rios e as florestas. São execuções e chacinas marcadas pela lei da impunidade em sua grande maioria.

A morosidade/anuência do estado tem desaguado em outras execuções e chacinas, como a realizada no município de Pau D´arco, no ano de 2017, onde 10 camponeses, sendo sete da mesma família foram assassinados. Aos moldes de Eldorado, tropas da PM com auxílio da Polícia Civil assinam o crime. Nas Amazônias, em solo paraense em particular, um riomar de impunidade a perder de vista sangra o estado.

No caso do Massacre de Eldorado, tiros foram desferidos a queima roupa na cabeça e órgãos vitais, atestou o laudo do IML. A estimativa é que pelo menos 10 sem terra foram executados nestes moldes. Os militares também usaram ferramentas de trabalho dos camponeses – foices e facões- para mutilar os corpos.

Após a chacina o Estado brasileiro passa a reconhecer em massa inúmeras áreas ocupadas por posseiros, – em alguns casos, há mais de 20 anos de ocupação – o que irá consagrar a região como a de maior concentração de projetos de assentamento da reforma agrária do país. José Batista Afonso, advogado da CPT de Marabá faz o escrutínio do caso desde a formação do MST no Pará até o massacre e seus desdobramentos. 


Advogados

Caso 1 – João Batista

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João Batista

Filho de camponeses da cidade de Votuporanga, São Paulo, nascido no ano de 1952, antes de tornar-se advogado de camponeses, foi vaqueiro e boiadeiro.   Ainda criança correu São Paulo, Minas Gerais e Goiás com o pai Nestor Antônio Batista a tocar tropa de cavalos, burros e bois.

Nos anos de 1960, por intermédio de amigos da família aportou em Paragominas, no Pará, para trabalhar de meia. A atividade consiste em dividir a produção com o dono da terra. Izaura, a mãe, tornou-se a cozinheira da fazenda.

João passou a adolescência entre a roça e Paragominas. Na cidade, raro era o dia em que não ocorria um assassinato à bala.  A violência diária rendeu à cidade a alcunha de Paragobala, aos moldes do que ocorreu com Marabá. Após idas e vindas, a família aportou em Belém nos anos de 1975, quando João retoma os estudos.

Neste período ingressou no curso de Direito, formou família com Elisenda, e ingressou na militância política, quando fez amizade com o já advogado Gabriel Pimenta, executado pelo latifúndio em 1982.

Após escapar de inúmeras emboscadas, o deputado estadual João Batista foi morto em dezembro de 1988, no fim da tarde, quando chegava em sua casa. O jornalista e militante Pedro, irmão de João, conta a trajetória do advogado dos camponeses, morto quando somava apenas 36 anos.


Caso 2 – Gabriel Pimenta

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Gabriel Pimenta

Gabriel Pimenta veio ao mundo no dia 20 de novembro de 1955, na Zona da Mata do estado de Minas Gerais, na cidade de Juiz de Fora. Uma cidade universitária. Agitada pelo fervor político. Gabriel foi o Terceiro entre os sete filhos homens do Seu Geraldo Pimenta e D. Glória. 

Pimenta cresceu no berço desta agitação política, quando o país ainda era asfixiado pelo obscurantismo da ditadura civil militar. Foi forjado na construção de centros e diretórios acadêmicos e na reorganização da União Nacional dos Estudantes (UNE). Em 1978, aos 24 anos, gradua-se em Direito.

No mesmo ano ingressou no Banco do Brasil via concurso público.  Não suportou a atividade no banco por mais de um ano, quando se desligou e mudou para Conceição do Araguaia, sul do Pará, para advogar na Comissão Pastoral da Terra (CPT). O contexto político era delicado, marcado pela militarização da questão agrária, e acirramento dos conflitos pela terra, e muita tensão por conta da Guerrilha do Araguaia, movimento organizado pelo PC do B.

Por diferença metodológica de ação junto aos camponeses com os religiosos da CPT, Gabriel migrou de Conceição do Araguaia para Marabá, por conta de vínculo de amizade com D. Alano, bravo religioso no combate contra o latifúndio da região.  Em 1981, após romper com a CPT, e ainda assim continuar na região a defender trabalhadores rurais, impediu uma reintegração de posse. A ação em favor dos posseiros rendeu ao advogado a jura de morte por fazendeiros da região.

No dia 18 de julho de 1982, no final da convenção municipal do PMDB de Marabá, ao sair à rua, Gabriel Pimenta foi covardemente assassinado com três tiros de revólver, pelas costas, disparados a curta distância pelo pistoleiro José Crescêncio de Oliveira, contratado pelo chefe de pistolagem José Pereira Nóbrega, o Marinheiro, sócio de Manoel Cardoso Neto, o Nelito. Gabriel Pimenta tombou sem vida aos 27 anos de idade. A breve e contundente trajetória de Pimenta é contada pela Associação Brasileira dos Advogados do Povo (Abrapo) e irmão de Gabriel, Rafael Sales Pimenta.


Religiosos

Caso 1 – Padre Josimo Tavares

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Padre Josimo Tavares

Josimo Tavares, o padre negro, foi assassinado quando somava 33 anos, na cidade de Imperatriz, no oeste do Maranhão, região do Bico do Papagaio, quando atuava na direção da Comissão Pastoral da Terra (CPT), no dia 10 de maio, de 1986, por volta do meio dia. Josimo foi executado no dia dedicado às mães, quando adentrava a sede da CPT.

Quando de sua execução Josimo trazia consigo uma bolsa com poucas roupas e o poema Páscoa Paz, que havia escrito há pouco e enviaria aos amigos pelo correio. Dois tiros foram desferidos pelo pistoleiro Geraldo Rodrigues da Costa que o chamou, antes, pelo nome.

O religioso nasceu às margens do rio Taurizinho, em Marabá, no Pará. Era dono de óculos grossos, tinha por habito o uso de sandálias de couro. Era conhecido pela paciência, timidez e simplicidade. Teve a vida embalada no berço da privação.  

Ele foi para o seminário menino ainda, fez seus estudos no Sudeste, tornou-se aluno de Leonardo Boff, foi ordenado sacerdote em Xambioá, local conhecido pela repressão à guerrilha do Araguaia. Trabalhou em Wanderlândia e foi transferido para São Sebastião do Tocantins. Foi preso pela polícia, caluniado, desprezado pela cor da pele, pelas opções, incompreendido por parte do clero de sua diocese, Tocantinópolis, e era ameaçado.


Caso 2 – Irmã Adelaide Molinari

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Irmã Adelaide Molinari

Adelaide Molinari nasceu em 2 de fevereiro de 1938, na área rural de Garibaldi, Rio Grande do Sul, a terceira, entre 11 irmãos, filha de Salvador e Cecília, pequenos agricultores que a criaram e lhe deram segurança e estabilidade. Uma família religiosa de tradições conservadoras. Com 16 anos, com apoio dos pais, ela foi morar com as irmãs Filhas do Amor Divino e acabaria por ingressar na vida religiosa feminina.

Molinari tombou no dia 14 de abril de 1985, na rodoviária de Eldorado do Carajás, n sudeste paraense. Minutos antes do crime a religiosa conversava com o dirigente Arnaldo Ferreira sobre educação. Cogita-se que o alvo era o militante, e não a religiosa. O tiro atravessou o corpo de Arnaldo e alcançou a jugular da irmã.  O igualmente padre, antropólogo, ex quadro da CPT em Conceição do Araguaia, e professor da UFRJ, Ricardo Rezende, rememora a trajetória dos pares religiosos.


Caso 3 – Irmã Dorothy Stang

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Irmã Dorothy Stang

A estadunidense Dorothy May Stang foi uma missionária filiada à Congregação de Notre Dame, e agente pastoral da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Nos anos de 1980 militou no município de Jacundá, no sudeste do estado.

Dorothy foi executada no dia 12 de fevereiro de 2005 no município de Anapu. O agricultor Amair Feijoli da Cunha, o “Tato”, intermediou a execução da missionária ao preço de 50 mil reais. 

Vitalmiro Bastos de Moura, o “Bida”, e Regivaldo Pereira Galvão, o “Taradão” foram os fazendeiros que chegaram ao banco dos réus pela encomenda da morte da religiosa. Como em outras partes do Estado, as instituições que defendem a reforma agrária avaliam que os mesmos integram consórcio de fazendeiros que encomendam a execução de desafetos.

10 meses separaram a execução da religiosa e ativista socioambiental do julgamento que condenou os pistoleiros Rayfran das Neves Sales e Clodoaldo Carlos Batista, condenados a 27 e 17 anos, respectivamente. Rayfran foi o responsável pelos seis disparos de revólver calibre 38, e Clodoaldo o cúmplice.  

O hiato de tempo entre a execução e o julgamento dos envolvidos foge à regra dos casos que envolvem camponeses e dirigentes sindicais, quando o prazo médio é uma década, ou mais. Isso, após inúmeras mobilizações em cortes internacionais.

O caso dos fazendeiros é recheado de idas e vindas. Inúmeros julgamentos, condenações, prisões e recursos. No caso de Bida, em 2007 foi condenado a 30 anos de prisão. Em novo julgamento, em 2008, foi absolvido, julgamento que veio a ser anulado após recurso do Ministério Público.  O procurador da República Felício Pontes Junior e o Padre Amaro recuperam parte da memória da luta de Stang. Ambos foram amigos da missionária.